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terça-feira, 18 de maio de 2010

Terapia, eu faço!

Depois de muitas conversas, de muitas tentativas de ida, mas com aquela vontade que não aparecia, consegui iniciar ‘aquele processo’ de me arrumar, pegar o elevador, entrar no meu carro e dirigir rumo à psicóloga, a terapeuta recomendada pela Luce (sempre ela), que está gostando muito, “porque ela é uma pessoa fantástica, tenho certeza que você vai adorar. Vá Cacilda, você vai esquecer todos os seus fantasmas. Eu estou adorando!”.
Pois bem. Não é nada fácil sair de casa depois de um histórico de perdas graves, que nem caberia aqui, se eu listasse. Pra resumir, eu não queria ver, ouvir, ou falar com ninguém. Estava bem dentro do meu quarto, minha muralha, minha segurança.
Chegando ao edifício onde está o consultório da terapeuta, deixei o carro na garagem e peguei o elevador. Quinto andar. Nesses poucos minutos pensei no vazio. Pensei branco. Pensei nada. Ao mesmo tempo, o outro lado do meu cérebro me dizia: “você não vai gostar, ela deve ser uma pessoa comum, nada tão inteligente, você não precisa disso, ela deve ser mediana, saia dessa agora!” e ainda “e se ela ficar calada durante toda a sessão? E se ela não conduzir o fio da conversa? Vou ter que falar não só sobre toda a minha vida, como ainda terei que expor todo mundo com quem convivo.” Nesse momento senti preguiça.
Chegando ao quinto andar, enquanto procurava seu consultório, ainda deu tempo de ouvir meu pensamento dizer: “O que é que estou fazendo aqui?”
É aqui. Encontrei o consultório. Ao adentrar o recinto, vi uma mulher com uma aura tão boa, sentada numa mesinha, que na verdade é destinada à sua secretária, que não estava lá naquela hora. “Ah! Então é você? A Luce me falou tão bem de tudo, que aqui estou!” Gente, vocês não têm noção do meu bloqueio para pessoas que acabei de conhecer! Mas, para quebrar o gelo, engoli o homem da cobra. Sabe? Aquele que não pára de falar? Pois é. Falei do calor, do trânsito, da hora, da cidade, e de repente, virei e disse: “Certo, mas como vai ser aqui? Eu sento, deito, fico falando e você calada, anotando? Ou você deita, e eu anoto o que vou falando, enquanto você fica calada? Ou ficamos as duas caladas? Ou as duas anotam, uma deita no sofá e outra na cadeira?”
Porém, não foi nada tão complicado assim. Ela é boa mesmo. Fiquei muito à vontade, falei de várias coisas ao mesmo tempo, porque ela me propôs uma conversa assim, sem temas específicos no começo. E eu fui falando sobre coisas que eu precisava dizer a algum tempo e que não poderia ser para família e nem amigos. Algumas coisas ficam guardadas lá atrás, na criança, na adolescente, e de tão bem guardadas, o corpo da gente acaba avisando que, com tanta velocidade de pensamento, ele pode falhar. E ser fatal. A conversa fluiu.
Estou começando a me entender. Ainda assim, bloqueio e/ou travo, nas ocasiões em que sempre agi assim. As coisas não mudam, ou melhor, não amadurecem do dia para a noite. É preciso tempo, e cada um tem o seu. Não é fácil sobreviver quando se tem um cérebro que roda com tamanha velocidade como o meu.
Tenho me esforçado para trabalhar minha tolerância com as pessoas. Assim serei tolerante comigo. Entre outras tantas de coisas que são ‘qualidades destorcidas’ e não, defeito. Isso eu já aprendi.
Se eu vou mudar? Certamente, não. Mas vou rever alguns conceitos diante de muitas coisas na minha vida, que sempre me atrapalharam muito. E como a vida não é estática, de repente, eu até mudo um pouco. Para alívio dos que me rodeiam.(Cassia Miranda)